terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Faça você mesmo

Sim. É o quarto e último capítulo da série, demorei a voltar, mas não poderia deixar uma história sem final, não é mesmo? Vale a pena.


1º ato: Mela o dia

Tesoura corre. Esconde-se. Sempre passa por cima de Papel e, como sempre, ele suporta o fardo. Tesoura reflete:

Minha vida não se basta em sonhos
Sonho bastante com a sonhada vida minha
Sondo minha vida com bastão de esperança,
que lança vida minha na bastilha

Papel retruca:

Prezado, como vi-te solitário
só aceite meu convite
Convida seu sonho mais próximo
com vida faz, se preciso...
com vida faz-se preciso
com vida faz ser preciso

Tesoura sorri para Papel, beija-lhe a mão e diz:
_Querido, esqueça seu sonho remoto. Viva com controle. Vá! Procure seu rumo.
Papel decepciona-se com a recusa, mas não se abate porque as respostas hão de chegar.
E fica por perto à espreita.

2º: Ex ternamente bem

Tesoura dá um longo suspiro.
Decide-se ser racional, mesmo que isto custe sua personalidade, mesmo que isto custe seu caráter, mesmo que isto custe-lhe seus sonhos.
Logo cai algo em cima de tesoura.
Era novamente a Pedra, só que está leve, com áurea de sonhadora, brilho nos olhos, vontade demais de mais e mais. Começa o diálogo entre as duas. Pedra diz:
_ Olá. Vejo que se feriu, é isto mesmo?
_ Imagine, senhorita, eu aguento a mais pesada avalanche.
Papel não se contem e diz:
_ Sua mentirosa!
Os dois olham, mas papel consegue esconder-se. Pedra prossegue:
_Você é muito esperto e corajoso. Você gostaria de me arrumar para o baile da pedreira? Você também poderia buscar os meus sapatos? Eu também preciso de retocar as minhas bordas.
Encantado pela presença de Pedra, que nunca deu a ele atenção, tesoura aceitou, ainda que não renunciasse a seu novo estilo racional.
Tesoura começa os trabalhos.
Papel diz:
_ Tola! Diz-se guiada pela razão, mas veja que cena lamentável de se ver.. idolatrando uma pedra.

3ª parte: A dez pedida

Tesoura trabalhou muito, está exausta. Pedra não lhe deu tempo para Tesoura se arrumar para o baile e as duas marcaram de se encontrar ao lado do riacho.
Tesoura chega totalmente desgastada.
Pedra a fuzila com o olhar:
_Como posso comparecer à sociedade com um objeto neste estado? Sem capacidade de dizer não aos meus caprichos, sem capacidade de dizer sim aos seus desejos. Livre-me, oh São Pedro, dessa gentalha, busque alguém com capacidade de me encarar.
Neste momento Papel surge por de trás da mata, encobre a Pedra e diz fatalmente:
_Chega deste teatro. Chega desta brincadeira. Será que você não vê que não é bem-vinda entre nós? Quem é você que ousa pedir prioridades? Há algo na vida que vale mais que vaidade e aparências. Descubra!
Papel atira-se com a pedra no riacho. A pedra fica presa no fundo, sem capacidade de ver o mundo novo. Papel está lá, desmanchando em pleno riacho, teme que suas escritas apaguem-se em meio a correnteza.

Permanece a tesoura sozinha somente.
Apaga-se a luz.
Desliga-se o som.
Fecha-se a cortina de sua vida.

Volta-se ao foco, a tesoura mexe em sua pesada bolsa, dentro havia aquele pedaço do Papel que ela a havia roubado. Nele estava escrito primeiramente uma frase de Antoine de Saint-Exupéry "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Embaixo palavras do próprio papel:
_O segredo da convivência duradoura entre papeis e tesouras sempre foi a cola Mor. Diante de qualquer corte, comum em um relacionamento entre espécies tão diferentes, esta cola tem o poder de solucionar nossos problemas. Agora a fábrica está em crise e como eu posso manter o relacionamento sem ela?
Neste momento acaba o fragmento de papel.

Tesoura conclui:
_Por isso o Papel estava se esforçando tanto, ele queria a cola. A falta dela fez acabar com a nossa relação. Se eu procurasse feito ele, não haveria... Ah, o que tem nesse armário?
Ela não percebeu antes, mas no final há uma anotação sem aparente motivo: Armário esquerda fundo 97208
Tesoura procura. Há um cofre dentro do armário, trancado, com senha. O código só podia ser aquele escrito no mesmo pedaço de papel.
Isso. Ela abre e descobre um estoque grande do produto tão desejado pela Tesoura, dentro havia a mensagem deixada também pelo Papel:
_Isto é tudo seu. Não me importo o que você faça com o meu estoque. Eu só quero dizer que valeu a pena toda a cola que eu pude comprar devido ao meu esforço. Era difícil te vigiar, me preocupar tanto com seus passos. Sim, você ignorava minha presença. Sim, desfazia-se do meu apreço por você. Agora eu deixo em suas mãos. Jogue fora. Despreze. Faça o que quiser. Não me importo os fins, mas que saiba que tudo aquilo foi verdade, tudo aquilo eu senti. Siga seu caminho, Tesoura. Ame!

5 comentários:

auto-retrato disse...

Da primeira vez que eu li eu não entendi, li três vezes e só assim consegui entender. É incrivel sua imaginação e como você viaja na brincadeira do ´´pedra, papel e tesoura``, e mais formidável como se estabelece a relação da tesoura e da folha, já que a cola é que os mantêm fortes e unidos. Eu viajei junto com as palavras em cada espaço descrito aqui, em cada atitude e até mesmo nos sentimentos declarados no começo, mas que no final a gente consegue unir as declarações e entender que a base da relação deles é a cola. Que imaginação hein, incrível. =)

Filippe. disse...

isso é completamente equivalente,
mas intragável vindo de você.


ah, e foi a melhor postagem aqui.

Thiara Pagani disse...

Louco isso... Ficou interessante!
E confuso!

Ismael Inoch disse...

tem algo no meu blog a seu respeito ;)

# mari disse...

pedra, papel e tesoooooooooou-rá!